Virei a página em 2017: torneiro mecânico supera demissão com entregas de bicicleta em Sertãozinho, SP

G1 - Rodolfo Tiengo - 28/12/2017 |

Marcelo Villela Alves foi uma das 21,6 mil pessoas em Sertãozinho (SP) que, no fim de 2015, sentiram, por meio da demissão, um dos efeitos mais dramáticos da crise econômica e política brasileira. Depois de atuar por 30 anos como torneiro mecânico, ele recebeu a notícia às vésperas do nascimento de sua filha.

Quase dois anos depois de ficar desempregado, Alves se transformou em empreendedor ao ver uma oportunidade de negócio com um serviço de entrega rápida de correspondências por bicicleta – veículo que ele havia começado a utilizar, por acaso, para se reabilitar de um acidente de moto.

Sem grandes investimentos, mas com uma junção de planejamento e determinação, o engenheiro de produção de 45 anos lançou o serviço neste ano. Atualmente, já contabiliza três vezes mais clientes e um faturamento 80% maior em relação ao período em que começou, e já faz planos de expansão para os próximos anos.

Virei a página em 2017 é uma série de reportagens do G1 que vai contar histórias de pessoas que, como Marcelo, alcançaram um sonho, superaram uma dificuldade ou mudaram de vida neste ano que termina.

Acidente e demissão
Se alguém dissesse a Alves, há pouco mais de quatro anos, que um dia deixaria de trabalhar na indústria para entregar cartas e documentos em uma bicicleta, ele provavelmente duvidaria.

Natural de Suzano (SP), ainda adolescente começou como torneiro mecânico, profissão que há 12 anos o levou a se estabelecer em Sertãozinho, cidade reconhecida como polo metalúrgico. Função que também o fez estudar mecânica industrial e engenharia de produção.

O meio de transporte, que mais tarde o faria mudar os rumos profissionais, surgiu violentamente. Após um acidente de moto – ele foi atingido por um carro em um cruzamento da cidade –, e de ter sérios ferimentos na perna esquerda, Alves encontrou nas pedaladas uma maneira de reabilitar seu corpo, que acabou por se tornar uma atividade física frequente.

"Comprei a bicicleta e, a princípio, ela ficou parada quase seis meses. Dei umas voltas, não tinha força para poder estar pedalando, sentia dores ainda. Aí fui convidado para fazer um pedal beneficente, acabei indo e comecei a pegar gosto. Nisso, já faz praticamente quatro anos que pedalo, pratico mountain bike", conta.

Em agosto de 2015, o torneiro tinha consciência das demissões cada vez mais frequentes, principalmente no setor industrial, mas não imaginava que, logo após voltar de férias e a uma semana de sua filha Isadora nascer, entraria na lista de corte da empresa em que atuava.

"Minha cabeça ficou desorientada. Perdi todo o chão, toda estrutura", lembra.

Ciclismo e negócios
Não foi fácil, mas também não foi traumático, garante o empresário. Foram meses de muitas dúvidas, currículos enviados em vão, com apenas uma entrevista marcada, mas também de muitas ideias e horas preciosas ao lado da filha Isadora – que o fizeram enxergar o futuro de um jeito diferente.

"Acabei ocupando meu tempo com ela, até me ajudou bastante a não ficar pensando muito na questão do desemprego."

Em um dos passeios de bicicleta pela cidade, o estalo necessário surgiu de maneira inesperada, quando Alves viu um carteiro. Ele sentiu que poderia mais uma vez utilizar o veículo sobre duas rodas como um aliado, mas dessa vez para os negócios.

"Eu estava levando minha esposa ao trabalho, de repente parei na esquina. Ele [o carteiro] passou na minha frente e deu aquele 'insight': é isso aí que vou fazer", descreve.

Em vez de iniciar de imediato, Alves fez pesquisa de mercado, estudou iniciativas parecidas em outras localidades como São Paulo, Curitiba (PR) e Fortaleza (CE) e concluiu que havia uma clientela em potencial pelo serviço rápido para entrega de mercadorias de pequeno porte e de documentos em sua cidade. Demanda impulsionada por um mote de sustentabilidade e de economia para as empresas.

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